Diário de Bordo

home bias e as oportunidades desperdiçadas

João Piccioni

15 maio 2024, 18:48 (Atualizado em 31 maio 2024, 14:23)

Essa edição do Diário de Bordo saiu com um pequeno atraso. Efeitos de uma amigdalite que me deixou com febre ao longo de todo o dia de ontem, e, também, pela busca de uma história que pudesse introduzir o tema do home bias (viés doméstico), que vive incrustado na cabeça dos investidores brasileiros.

O home bias diz que os investidores ao redor do globo estariam mais à vontade ao alocar recursos em ativos localizados nas regiões nas quais eles estariam inseridos. Na teoria, este comportamento seria alimentado pela redução da assimetria informacional e pela proximidade física aos ativos das companhias ou instrumentos financeiros.

Na minha dissertação de mestrado, publicada em 2012, discorri exatamente sobre o tema ao explorar as preferências dos gestores internacionais ao alocar recursos na América Latina. Utilizando dados de 2008 a 2010, encontramos evidências claras de que os estrangeiros olham para as nossas ações de forma diferente. A concentração nas large caps era maior, pois justamente elas proporcionavam menor assimetria informacional. Além disso, os estrangeiros detinham claras preferências por empresas que possuíam balanços sólidos, cuja rentabilidade fosse mais elevada que a média e menos alavancadas. Já os gestores locais, eram menos preocupados com tais indicadores e detinham espectros mais amplos dos ativos das bolsas. 

Depois de acompanhar os mercados internacionais por mais de uma década e estudar sua história com alguma profundidade, fica muito claro que os fluxos são imperativos e que são os responsáveis por uma parte importante dos retornos de capital dos investidores. A habilidade em identificar oportunidades em diferentes mercados talvez tenha sido a arma mais poderosa dos grandes investidores. Não se aterem a uma única geografia, aprender a explorar oportunidades em outros mercados e se manterem próximos à fronteira da tecnologia, foi o que os levou a manter retornos elevados em dólar por muito tempo. 

Nesse ínterim, podemos citar nomes como Ray Dalio, Stanley Druckenmiller, John Templeton, Joel Greenblatt, George Soros, Jim Simmons, Warren Buffett, entre outros tantos, que surfaram as ondas globais e deixaram de lado o exagero de se manter enviesados pelo home bias.

E não acredito que as conclusões que alcançamos no paper lá atrás sejam diferentes daquelas que alcançaríamos atualmente. Especialmente após a profusão dos ETFs ao longo da última década. A assimetria informacional ainda parece ser um aspecto perseguido pelos gestores locais e entendido como uma vantagem competitiva. Aqui no Brasil, esse comportamento é mais do que claro e a dificuldade para se alocar ativos internacionais dentro dos portfólios é espantosa. 

Talvez parte disso esteja ligado ao câmbio, suplantado pela memória dos tempos áureos do real, quando ele ainda detinha alguma paridade frente ao dólar. Parte talvez esteja ligado à conexão com os ativos reais locais, que insistem em criar uma aura de retornos crescentes na mente do investidor. Mas o que a realidade nua e crua mostra mesmo, é que ao longo dos últimos 30 anos — aliás, parabéns ao Plano Real — quem alocou seus recursos somente em ativos locais, sejam eles ações, renda fixa ou imóveis, deixou uma fatia importante da evolução do seu portfólio na mesa. E acredito que os próximos anos vão ser ainda mais duros para aqueles que insistirem nesse modelo.

Na Empiricus Gestão, possuímos alguns fundos de investimento direcionados para os mercados internacionais. Recorrentemente, tenho comentado sobre nosso processo decisório e pelo bom desempenho obtido ao longo dos últimos meses. Nosso objetivo é claramente proporcionar retornos diferenciados ao investidor comum, procurando explorar as fronteiras de investimento global. São retornos em dólar que farão a diferença lá na frente.

O comportamento dos mercados em Maio e os ajustes nas carteiras

Chegamos a metade do mês de maio e a euforia dos investidores com a renda variável global voltou a ganhar intensidade. Não bastasse os bons desempenhos dos principais índices das Bolsas globais, voltamos a conviver com a loucura das meme stocks. As ações da loja de games, GameStop, e da rede de cinemas AMC, voltaram a chamar atenção ao despontarem 203% e 75% dentro do mês de maio. Já sabemos onde essa história nos leva e, por isso, o melhor é observar de longe.

Entretanto, isso não significa que tudo é uma simples euforia. Muito pelo contrário. Os resultados corporativos vieram melhores do que se esperava e o que vemos agora é a simples reverberação nos preços das ações. A sinalização sobre a política monetária ainda é favorável (a probabilidade de redução dos juros é amplamente superior à de aumentá-los), as economias desenvolvidas ex-EUA estão dando os primeiros sinais mais claros de recuperação e as pressões geopolíticas parecem ter arrefecido (ao menos nas manchetes da mídia).

As novidades do mundo da tecnologia também não param de surgir. Na segunda-feira (13), foi a vez do OpenAI lançar uma versão mais poderosa do seu produto, o GPT-4o. Ontem (14), foi a vez da Alphabet anunciar as mudanças no Google Search, que agora contará com o poder do Gemini AI. Além disso, reforçaram a oferta dos servidores munidos com o pacote Blackwell da Nvidia para os desenvolvedores de programas que utilizam os modelos de IA. Na semana passada, foi a vez da Apple lançar o seu novo iPad com o chip M4, o mais poderoso já desenvolvido pela empresa fundada por Steve Jobs. A velocidade dos avanços é substancial e vai impactar positivamente os resultados dessas empresas, retroalimentando o mercado acionário. Ao menos até que algum problema mais real afete verdadeiramente a ordem econômica atual.

Enquanto isso, na enfermaria — leia-se aqui no Brasil —, continuamos cantando sucessos (im)populares. A última notícia veio na calada da noite de ontem. Jean Paul Prates, então CEO da Petrobras, foi destituído do cargo por uma decisão do governo. A substituta será Magda Chambriard, ex-diretora da Agência Nacional do Petróleo (ANP) durante o governo da ex-presidente Dilma Rousseff. Os questionamentos sobre a condução de Prates foram os mesmos de outrora e não trouxeram novidades. A respeitosa reação do mercado — as ações caíam por volta de 7% enquanto escrevia esta edição — já dizia muito do que precisamos saber, ou que já sabíamos. Afinal, na teoria o home bias deveria ajudar a reduzir a assimetria de informação, não é?

De qualquer maneira, a reação em relação às ações da Petrobras precisa ser lida da mesma forma como em outros momentos. Os resultados recentes foram bastante positivos e a eventual queda nos lucros deveu-se às oscilações cambiais e preços do barril de petróleo. Somente ali na frente poderemos detectar se haverá realmente alguma destruição de valor sob essa nova direção. Vale ter em mente que alguns custos operacionais da empresa, ligados às despesas de marketing e afins já vinham subindo no mandato de Prates. À conferir.

Em termos dos portfólios, fizemos pequenos ajustes nos sobrepesos de alguns ativos, mas nada muito estrutural. Somente no Empiricus Tech Select FIA BDR Nível I que voltamos à carga com as ações da Salesforce, que divulgará seus resultados trimestrais no próximo dia 29. A empresa liderada por Benioff deve emplacar mais um bom número e dado o comportamento ruim das ações nas últimas semanas, acredito que existe uma chance boa de retomada. Por outro lado, zeramos a posição nas ações da Nintendo, que sobem cerca de 10% no mês, após o anúncio do lançamento do novo Switch. Ainda não confirmado, a nova geração do console certamente será bastante questionada, especialmente após o sucesso do Switch. Nos preços atuais, enxergamos as ações como bem precificadas. Mas se alguma oportunidade aparecer no radar, poderemos voltar ao papel. Ficaremos de olho.

Forte abraço,

João Piccioni

PS. Em tempo, a leitura da Ata do Copom não surpreendeu. Claramente se apoiaram na “tecnicidade” do processo. O grupo que preferiu os 50 pontos base se ateve ao forward guidance dado na penúltima reunião. O grupo dos 25 pontos base preferiu observar os dados recentes, piores na média. No final, o que prevaleceu mesmo foram os dados da inflação americana, um pouco melhores do que o esperado. Entre essas idas e vindas, o que vemos mesmo é a volatilidade na renda fixa, que tem dificultado a vida dos gestores. Mais um episódio para conferirmos.

NAO CONSEGUI ATUALIZAR A TABELA DAQUI DE CASA- NAO COLOCAR

Apresentamos a seguir a tabela contendo os resultados das principais estratégias da casa, nas janelas mensal, anual, semestral e anual. Caso você deseje conferir algum outro fundo que não esteja presente nesta lista, visite o nosso site: www.empiricusgestao.com.br.


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